Desculpe o texto longo, mas como já existem senhas que são verdadeiros poemas criptografados, quem seria eu para não espelhar a idéia numa puta cronicona? Seria cronicão?
Alguém consegue lembrar, se para abrir nossa caixa de correio, instalada no muro, era necessário senha? Talvez possam me informar se o carteiro possuía certificado de funcionário seguro ou vinha carimbado com um cadeado confirmando total privacidade. Por um acaso, extratos bancários, boletos de cobrança, contas telefônicas e cartas pessoais, entregues em nossa residência, vem com algum tipo de criptografia ou chave secreta para abertura do envelope? Peço que me recordem, se o segredo que abre o cofre é alfanumérico ou somente números. A não ser através de grampos ilegais colocados no telefone fixo, o pulso elétrico, transmitido numa conversa, pode ser facilmente interpretado por invasores de privacidade? Por favor, alguém lembra onde coloquei a chave do carro?
Já repararam como hoje em dia tudo funciona a base de senha? É senha para caixa eletrônico, senha para cartão do banco, senha para internet banking, senha para bankphone, senha para cartão de crédito, senha para programa de milhagem aérea, senha para acessar conta telefônica on-line, senha para carregar provedor de internet, senha para entrar no webmail, senha para Blogar, Flogar, Emeesseenar, Orkutar, Skypar, senha para assinatura digital, senha para isso, senha para aquilo, senha para tudo que é lugar. Senha, senha, senha, senha... Onde isso vai parar?
E cada prestador de serviços nos sugere – na realidade nos intimida – a usarmos senhas não pessoais. Aquelas que em nada tem a ver conosco ou com nosso cotidiano, tal qual datas de aniversários, números de telefones, placas de carros, documentos pessoais e sei lá mais o que, sob pena de algum hacker, cracker ou outro bolacha qualquer, acessar seus dados bancários e rapar a conta, fazer compras on-line com nosso cartão de crédito já estourado, transferir suas milhagens falidas para outros vôos cancelados, quebrar nosso sigilo telefônico, clonar seu aparelho para centrais penitenciárias praticarem seqüestros falsos, invadir nossa correspondência digital e descobrir minha amante virtual ou seu caso binário homossexual, publicar textos racistas, incitar pedofilia e sexo com animais, divulgar pornografia e agredir outras pessoas se passando pela gente. Nossa senha descoberta, pode nos arruinar financeiramente, nos endividar eternamente, nos incriminar como pedófilos, racistas, caluniadores, pervertidos e toda ordem de desgraça que seja possível fazer através das vias digitais.
Haja senha, haja criatividade, haja memória para proteger todas essas informações e nos afastar d aqueles que as querem. O custo da privacidade pode me levar ao Alzheimer precoce, pois não consigo – alguém consegue? - produzir uma quantidade tão grande de senhas impessoais, sem que muitas vezes esqueça alguma e seja privado de acessar aquilo que é meu. Perda temporária de memória em face do acumulo de informações. É muita senha caspeta!
Isso agravado ao fato dos mesmos prestadores sugerirem – numa intimidação complementar – que troquemos periodicamente tais senhas para nossa própria segurança. Mais senhas! Já não consigo diversificar tanta senha e ainda tenho que trocá-las com periodicidade. Isso é praticamente impossível. Terei que fazer rodízio de senha ou chegará o dia em que precisarei andar – se é que muitos já não o fazem em suas próprias agendas pessoais - com bloquinhos de bolso, para anotar todas as senhas que possuo. Olha que situação! Então para que senha digital, se ela pode parar no papel e este, eventualmente ser roubado por um real trombadinha analfabeto ao invés de um inteligentíssimo ladrão virtual? Só troquei seis por meia dúzia.
Caracas. Havia esquecido da senha para desbloquear celular. Celular bloqueado por senha, para não ser usado pelo ladrão que nos roubou num arrastão dentro do ônibus ou enquanto curtíamos uma praia de domingo. E quando eu quiser usar nem vou poder. Não por causa do bandido que levou, mas por conta da minha memória. Vá lembrar na hora do desespero se a senha que está sendo digitada no celular não é a do bankphone. Afinal tudo é telefone pô.
E ainda existem os logins da vida, que apesar de não serem senhas, acabam sendo. É verdade! É login para tudo. Inscreva-se num provedor de internet e seu login virá com título de usuário, que na realidade é um e-mail. Inscreva-se num Blog e usará um e-mail como login. Vá trabalhar numa empresa com rede de computadores – quase todas têm – e para logar seu micro e ter acesso ao sistema, terá que digitar um login. Ah! A senha deste login também. Ai, na confusão do login disso e senha daquilo, a gente digita o nome de usuário da internet de casa, com a senha de acesso do Blog. Ai, o servidor de rede da empresa que é seguro, informa o erro e pede correção. Vamos a segunda tentativa e digitamos o login sei lá do que e a senha sei lá de onde, afinal já entramos no prédio errado e o elevador pode ir para qualquer andar. Novamente o sistema informa o erro, pede correção e avisa que na terceira tentativa errada bloqueará sua conta. Conta bloqueada por que não lembramos qual login e senha deveríamos digitar. Na realidade não lembramos qual login e senha corretas, dentre o universo de logins e senhas que possuímos. E o que vem depois é ainda pior, pois o sistema bloqueia mesmo sua conta e avisa que deveremos criar uma nova senha com o administrador da rede. Nova senha? Eu nem lembro o login...
Não bastasse essa parafernália digital, ainda complicam um pouco mais, pois não existe um tamanho padronizado nem tipo definido para senha. Alguns prestadores adotam quatro dígitos, outros seis, alguns oito e raras exceções com muito mais, numa combinação de números, às vezes só letras e os mais seguros – sinceramente não sei para quem - com combinações alfanuméricas criptografadas de tantos bits. Pela madrugada! Tem horas que observo algumas pessoas digitando senhas – de uma distância segura para mim, afinal não posso introspectar mais uma senha como se fosse minha - e me deparo com a verdadeira dissertação de um poema, pois o usuário não para de escrever no teclado. Talvez essa seja uma saída. Criar senhas através de textos seguros. Quem sabe senhas crônicas...
Mas certamente alguém me observará que existe a pergunta secreta, na realidade uma pergunta visível com a resposta secreta, que deixamos registrada no prestador de serviço digital e que somente nós sabemos responder. Ufa! Afinal, a salvação da lavoura dos esquecidos...
Mas esperem! Novamente o prestador de serviços sugere – numa intimidação quase mortal - que não nos questionemos com perguntas que outras pessoas podem responder. Na realidade querem que não perguntemos ao candidato a invasor com aquilo que ele pode saber, como quantos filhos temos, qual a placa do nosso carro, qual time torcemos ou qual o nome da esposa, mãe, pai, irmão, empresa que trabalhamos, rua onde moramos e outras informações que sabemos desde criancinhas. E agora? Se não posso ter como pergunta secreta aquilo que sei de cor e salteado, qual questionamento irei me fazer então? Eles – os prestadores - sugerem que coloquemos o nome do primeiro cachorro, a data do enterro da sogra, o nome da professora do jardim da infância, quantos anos tínhamos na primeira masturbação, a placa do carro que vendemos com o motor fundindo, o bicho de estimação que morreu atropelado, a sétima namorada em ordem invertida, o nome de nosso inimigo mortal, a sobremesa que detestamos e outras perguntas secretas que às vezes nem lembramos se temos. Quantas perguntas vinculadas a respostas intimamente pessoais podemos produzir além das senhas secretas e logins complexos?
E toda essa pergunta secreta para que? Para mandarem um aviso para nosso e-mail alternativo, informando uma nova senha aleatória ou a habilitação de nosso acesso temporário, no intuito de que entremos no site e troquemos a senha esquecida por uma nova senha atualizada. E se eu esqueci a senha do e-mail alternativo? E se você esqueceu qual e-mail alternativo relacionou naquele site, tamanha a quantidade de e-mails que precisamos criar para nos habilitarmos no serviços A, B ou C, disponíveis na internet, que exigem e-mails proprietários? Ainda tem isso! E-mail proprietário, que nem sempre pode ser criado com nosso nome, pois algum Paulo Cosmo já fez isso antes. Daí sugerem pauloco1965, 2301pacosmo, paulocosmo52 e outras siglas, como opções de login, que nosso cérebro certamente não lembrará. Vá guardar isso e a senha disso?
E toda essa segurança para que, se algumas prestadoras de serviço ou agências hiper-seguras, com bloqueadores de invasão, detetores de bisbilhoteiros mal intencionados, sistemas ultra-modernos de vigilância e proteção, por vezes possuem funcionários - com crachás de identificação, logins e senhas privativas de conexão - que deveriam garantir nossa privacidade, mas acabam copiando o cadastro secreto super-protegido por chaves criptografadas de 128 bits, com o objetivo de negociar com receptadores, que repassam a atravessadores, que fornecem a produtores de CD alternativos, que alimentam milhares de agentes do comércio informal, para venderem em seus ilegais estabelecimentos comerciais, a preços populares, nossos dados privados para quem quiser pagar?
Mas tudo isso no maior sigilo e segurança, com preservação da privacidade do comprador e garantia de acessibilidade irrestrita dos dados, através de uma senha especial e exclusiva, geralmente escrita a caneta diretamente no CD, que permite só para quem adquiriu, que verifique nossa vida secreta e faça com ela o que quiser. Isso se o bem intencionado comprador não perder o CD no banco do ônibus, e este for encontrado por um nerdinha qualquer, doido para mostrar ao pai que ele arrasa em RGB e por isso precisa ficar antenado na internet toda noite. Daí seu segredo vira programa de video-game, que será comercializado com código de barras e senha de instalação para proteção contra cópia pirata. Alguém já viu essa história de software protegido? Então! Dá para confiar na própria proteção com a senha? Imagine sem a senha então!