Finalmente, após anos, muitos anos mesmo, percebi o porque das cadeiras de dentista serem tão confortáveis. Diga-se de passagem, confortáveis desde a época em que as brocas eram de baixa rotação, o amálgama era feito pelo próprio dentista, não existia sugador de saliva, a obturação - por precaução - acabava com o dente inteiro apesar da cárie ser apenas um pontinho manchado. Ah! Não havia ajudante no consultório. Era só você, seu dentista, mas principalmente Deus a segurar em nossas mãos. Época de anestesia que derrubava o rosto inteiro por horas...
Mas voltando as cadeiras. Dentista faz com o paciente a mesma coisa que frigorífico faz com o boi. O frigorífico primeiro dá carinho para que o bicho se sinta protegido e depois senta o porrete. A carne fica macia, macia, pois o boi não morreu estressado. A cadeira do dentista é um tanto similar. Você senta, reclina-se, desce suavemente a cabeça em direção ao encosto, estica as pernas, quem sabe até transpõe uma sobre a outra, cruza os braços ou fricciona as mãos, sente-se relaxado, confortável e se por alguns instantes fechar os olhos e esquecer de onde esta, pode até cair num sono profundo de sonho picante com a Ana Paula Arósio. Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii Ana Paula Arósio. Carne macia, macia...
Mas a questão é que sabemos onde estamos e é impossível fechar os olhos. Na realidade fechar os olhos é fácil, pois na hora que a auxiliar lhe coloca o óculos, depois o babador em seu peito, por fim aquele lencinho na sua mão e o dentista vem com a frase "abre a boca" seguida da introdução daquela pinça investigadora, não tem jeito. Fechamos os olhos para não ver. Mas não ver o que se não conseguimos olhar para dentro de nossas bocas?
Dentista é meio vodoo. Inicia com todo um ritual macábro para que entremos no clima apavorante. Alguns nos drogam para que não sintamos a tortura a todo vapor. Mas outros são carniceiros. Iniciam o trabalho sem dó nem piedade. Gostam mesmo de ver nossas pálpebras se apertando, nossos lábios se contraindo e a boca silenciosamente se fechando. Alguns masoquistas ainda conversam com você e esperam que você responda. E quando ele pincela? E o jatinho de ar? E quando ele vem com a maquininha? E o jatinho de água? Pasme! Alguns perguntam se está doendo. Na realidade dentistas adoram conversar com os pacientes. Acharam a maneira correta de dizer qualquer merda e não ouvirem uma opinião contrária, seja porque não podemos discutir com a boca cheia, seja porque não devemos discutir com o dentista numa hora dessas...
Essa semana, durante meu tratamento de canal - só canal -, após eu reclamar de um dor, meu dentista me disse: seus dentes são muito sensíveis. Na hora que ele deu um tempo, respondi: sensíveis o cacete. São uns insensíveis, desnaturados. Fossem sensíveis não ficariam a castigar a boca que lhes alimenta, o corpo que lhes hospeda, a alma que toma conta de tudo isso, mas principalmente o ouvido que geme solidário de dor.




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